Passo por este prédio regularmente, mas hoje o mato nos fios da rede elétrica capturou meu olhar. No momento em que saco o celular para fotografar a cena, um morador se achega, despercebido, e comenta: "Aqui é um bom bairro". Esclareci que meu foco não era o imóvel, mas a vegetação entranhada na fiação. Ele me informou tratar-se de uma bromélia, uma praga. "Já subiram para o primeiro andar", observei. Então, nos despedimos.
Na fiação elétrica
nem um pouco ressecadas
as bromélias verdes.
Depois de quase dois anos afastado da sangha, retorno ao mosteiro Zen da Pompeia justamente no período final do Rohatsu sesshin, um retiro de oito dias que recorda a iluminação de Shakyamuni Buda. O convite para a cerimônia partiu da Marina, que vai receber os preceitos leigos budistas (Jukai-e). Havia uma apreensão silenciosa sobre a recepção da monja e da comunidade de praticantes. Hoje, porém, meu coração está aberto, e carrego o arrependimento dos últimos acontecimentos. Em celebração a este momento e ao fecho de mais um ciclo, dedico a sangha estes dois haicais:
A iluminação
de Buda, todos os anos
com verão chegando...
Sesshin de bodhi.
uma rosa sem espinhos
no altar de Monju.
Julia, uma grande amiga, está no Japão, onde o inverno se inicia nesta época do ano. Entre apresentações de dança, estações de trem e vasos de caqui, ela me enviou pelo whatsapp alguns haicais de Tsukimi (observação da Lua) de Novembro. Agradeci o gesto; e através dos poemas, pude me conectar e sentir um vislumbre da sua experiência na terra dos samurais.
chegada no japão
um arco íris
anfitrião
sem piscar
levo a lua
no olhar
noite gelada
só a lua
e mais nada
outono
engulo a lua
bebendo sakê
lua cheia
me esquenta no frio
como minha meia
cadê a lua
que está aqui?
meu copo vazio
girando no copo
a lua
ou eu?
nuvem invejosa
deixe a lua
brilhar esta noite
queridos insetos
minha luminária
não é a lua
lua sapeca
seu reflexo
enfeitiçou a perereca
lua sapeca
escapa do meu copo
ninguém te pega
pensando na lua
vejo a lua
no mundo da lua
lua cheia
com você
nada a temer
uma brisa de gohan
invadiu
esta manhã
cheiro de pêssego
meu companheiro
de passeio
Hoje, o dia reservou-me momentos especiais. Houve tempo para reconciliações, para rever e abraçar velhas amizades, conhecer novos praticantes e renovar votos. Mas o ponto alto foi, sem dúvida, o Jukai-e da Marina — ou melhor, da Marinoca sensei, ou ainda, Shinkai-san! Um filme, não de uma hora e meia, mas de um ano e meio, projetou-se em minha mente. Sinto-me agora leve e profundamente grato. Foi nesse estado de espírito que, à espera do ônibus no terminal em frente ao metrô Vila Madalena, brotaram os haicais que dedico á ela neste dia.
Após o jukai
Marina é a Shinkai.
Lírios perfumados.
Na palma da mão
pasta de feijão azuki.
Iluminação.
Agradecimentos.
esbarrão no jarro de flor
fudas ensopados.
Durante a caminhada dominical, passei por um bar lotado na Av. Nova. Tocava um samba do Zeca Pagodinho que dizia assim: "Troquei Cristo por todo mundo". Até chegar em casa, essa parte da letra me intrigou bastante. Pensei na hora: talvez esse seja o problema das pessoas recém convertidas. Elas querem ter Jesus a sua própria semelhança, trocam uma coisa por outra, e não reconhecem Cristo nos outros — muito menos naqueles da pá-virada. Enquanto eu refletia sobre isso, avistei ao longe três conhecidos papeando em outro bar, ao lado de uma banca de jornal de portas fechadas. Imediatamente, anotei este haicai.
Sentados no bar
uma cadeira está vaga.
velhos camaradas.
Fim de Dezembro. No retorno de um compromisso, deparo-me com uma charmosa pracinha arborizada no Jd. São Paulo, à sombra de uma Igreja Messiânica. Ali, um grupo de senhoras nikkeis praticavam exercícios contemplativos. Os movimentos harmônicos, quase em câmera lenta, desafiam o tempo, orientados por um instrutor nitidamente mais jovem. Um vento frio sussurra pelos bancos e a corrente do balanço range. A primavera se despede, visível apenas nas pequenas sandálias coloridas na grama. Por um breve instante, sinto brotar do peito dois singelos haicais que imediatamente anoto:
Qi gong na praça.
a vovó nissei abre o leque
numa chicotada.
Parte a primavera.
a vovó nissei arregaça
as mangas de lã.
Eu estava no ônibus (Vila Zilda - Metrô Belém 179P), já relativamente próximo do meu ponto de desembarque. De repente, começou a chover forte. Era um daqueles ônibus antigos e, em poucos minutos, os vidros embaçaram completamente. Dei sinal, levantei-me para descer e reparei em uma garota com semblante triste sentada no banco da frente.
No vidro do ônibus
a moça joga sozinha
jogo da velha.
Abro o portão para a lida matinal: varrer a garagem, recolher embalagens plásticas e o lixo que insistem em se acumular na calçada. Entre o asfalto e o meio-fio, meus olhos capturam uma flor de haste esguia e penugens brancas. Agacho-me e identifico, nostálgico, um dente-de-leão. Lembro-me de quando era criança, e do prazer de assoprar aquelas sementes ao vento. O cenário ao redor muda: vejo fixado uma placa amarela de ALUGA-SE na porta da casa da vizinha, e uma caminhonete de mudanças estacionada à frente com a carroceria repleta de móveis. Anotei esses haicais assim que terminei a limpeza e desejei em pensamento que a vizinha siga feliz pra sua nova casa.
Carro de mudanças.
ela cultivava rosas
no seu canteiro.
De um dia para o outro
entre o meio-fio e a rua.
dente-de-leão.
É interessante como os objetos esquecidos e extraviados ganham, no fim do ano, o seu merecido destaque. Dezembro é o mês do descarte e da limpeza pesada, o momento de começar o próximo ciclo apenas com o essencial. Revirando minhas gavetas, já encontrei de tudo: dinheiro perdido, notas fiscais, cupons vencidos e até recibos antigos de shows do Sesc. Mas, nessa última faxina, uma embalagem colorida me fez parar, olhar de novo e gargalhar.
Última faxina.
na gaveta do criado
jontex de morango.
Oito anos se passaram desde o último título expressivo do Corinthians, ano em que minha mãe faleceu. Não tive ânimo para comemorar em 2017. Hoje, sem dormir há dois dias, agradeci o título da Copa do Brasil 2025 com uma volta ao redor do estádio em completo silêncio, enquanto a multidão se dispersava em direção à Radial. Lembrei-me, então, de um haicai que fiz em 2012.
Japão invadido.
é Itaquera também
onde Bashō pisou.
É comum, às vésperas do fim de ano, feirantes armarem barracas de frutas numa avenida movimentada do bairro. Melancias cortadas artisticamente, rodelas de abacaxi em forma de estrelas, taças com morango e bananas penduradas compõem o cenário. Durante a caminhada desta tarde, passei por uma dessas barracas, e uma ventania que durou cerca de cinco minutos quase colocou tudo no chão. Apreensivo, escrevi esse haicai:
Cobertas com lona
tremem ao vendaval
os caixotes de uva.
Primeiro de Janeiro, como em todos anos, realizo o velho costume japonês de visitar um tempo cristão ou budista perto de casa para agradecer pelo ano que se foi e pedir clareza para o ano que chegou. No caminho da volta pra casa, percebi uma aglomeração na árvore quando me aproximei, infelizmente os pássaros dali dispersaram. Queria fotografá-los bicando a fruta. Nesse momento desejei que ninguém passasse fome na Terra e fiz esse haicai:"
Da igreja pra casa
manga provada no galho.
Dia de Hatsumōde.

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